O primeiro amanhecer do resto das nossas vidas
Percebi pela janela que estava clareando. Pensei ao mesmo tempo que a
noite tinha sido muito curta e que tinha durado uma eternidade. Não sei
explicar, mas foi uma sensação dupla de que tudo foi muito rápido e de que
estava internada há séculos.
Estourou a bolsa com um ligeiro splash. Não senti nada de diferente
além da imensa pressão que já estava bem familiar. Dr. Narciso saiu para
atender a mais uma mulher que já estava dando a luz (mais uma que chegou bem
depois que eu! Era o cúmulo!). Por alguns minutos não me lembro bem o que
aconteceu, mas de repente o dr. Henrique saiu, deixando tudo como estava. Enos
e eu nos olhamos sem entender mais nada. Voltou logo depois com o dr. Narciso.
Minhas contrações tinham parado de repente. Eu sentia a pressão, mas não estava
contraindo. Dr Narciso decidiu assumir e enviou dr Henrique para assistir à
outra mulher que também estava pronta.
Aí começou a crise final. Ele pediu à enfermeira que me colocasse soro.
Surtei. Gritei que não, que ninguém estava autorizado a me furar, que não
queria, que recusava. Gritei com todo mundo, xinguei.
Dr. Narciso tentava me
fazer raciocinar, dizendo que poderia ficar estacionada mais duas horas
enquanto minhas forças se esgotavam, mas que o soro seria só “uma vitamina”
para me ajudar.
Gritei que não sou idiota, que sei que iriam me dar ocitocina
sintética e que não concordava, que não, não e não. As duas ou três enfermeiras
ao meu redor tentando me apaziguar com vozes suaves só me irritavam cada vez
mais, e lembro de ter pensado que se tivesse forças suficientes estapearia os
rostos de todas de uma vez só. Rsrs.
Aí então o dr apelou para o Enos. Disse que ninguém poderia me pôr o
soro se eu não concordasse, mas que seria de grande ajuda para mim mesma, pois
já estava muito cansada. O Enos, que estava segurando a minha mão o tempo todo,
me olhou nos olhos. Não era pena, não era confronto. Era somente amor. Ele me
olhou e me disse o quanto eu tinha sido forte o corajosa, o quanto tinha feito
um ótimo trabalho e o quanto ele tinha orgulho de mim e me amava. Que me
deixasse ser ajudada, que logo estaria tudo acabado e a bebê em meus braços, e
que Deus iria cuidar de tudo. Exausta, chorei e concordei com o soro.
Confesso
que meu medo maior não era o soro em si. Sabia que estava tudo feito, não era
como se estivesse no início do trabalho de parto onde tudo poderia acontecer.
Meu medo maior era a agulha na minha mão! Nunca tive que pôr uma, e tinha medo
de me impressionar com a agulha e que minha pressão caísse, que desmaiasse e
não conseguisse empurrar. Isso nem era possível de acontecer àquela hora, mas o
medo não me permitiu pensar nisso.
Me furaram não uma, mas duas vezes porque a primeira não deu certo
devido à tensão da minha mão (que ironia). Não lembro de ter me sentido
diferente após isso, mas as contrações logo recomeçaram. Tentei não pensar na
agulha e no soro, e seguir em frente.
Ao longe, um chorinho novo. Mais uma menina nascendo, aquela que o dr.
Henrique tinha ido assistir. Dr Narciso ouviu e disse: Pronto, agora o próximo
chorinho será o da Hadassa!
Decidi que não queria mais nenhuma intervenção e que aquele parto iria
acabar logo de uma vez. Seguindo a orientação do médico, quando senti a
contração começando a diminuir, fiz força. Não sei quantas contrações levou.
Perdi a conta, mas foram várias. A cabecinha apareceu direitinho, o doutor
chamou o Enos para ver. O Enos ficou maravilhado e veio com lágrimas nos olhos,
de novo para meu lado. Mais algumas contrações e então PLOP! de uma vez, a
Hadassa tinha nascido.
Impossível descrever a alegria, o alívio, a plenitude daquele momento.
Toda a dor parou, assim, num instante. O primeiro chorinho da minha filha, toda
molhada, roxa e enrugada foi o som mais maravilhoso do mundo.
“Uma menina, magra e comprida!” Anunciou o médico. Às 6:25 da segunda
feira do Carnaval de 2014, dia 3 de março.
Falei, ou melhor, berrei para ele não cortar o cordão ainda (o hospital
tem como diretriz esperar 3 minutos para cortar o cordão, ou seja, basicamente
eu estava dizendo ao médico como fazer o trabalho dele). Ele respondeu sem
muita paciência algo como: “deixe que a obstetra sabe o que faz”.
Eu tinha tirado os óculos durante o trabalho de parto, pois o “peso”
deles me incomodava. Com minha miopia galopante e uma nuvem de lágrimas de
alegria me cobrindo os olhos, mal enxerguei quando me mostraram a bebê. Essa
parte o privilegiado papai guardou melhor.
Logo após nos mostrarem, levaram a bebê para os primeiros exames. O
Enos tentou ir atrás para acompanhar tudo, mas o detiveram antes que
conseguisse sair da sala. Falaram que esperasse um pouco que já o iriam chamar.
Eu estava eufórica. Comecei a falar loucamente e a argumentar com o médico que
era melhor que minha bebê estivesse comigo, quem sabe já amamentar e assim
ajudar a expulsão da placenta. Ele concordou, mas disse que a bebê estava
recebendo os primeiros cuidados e logo estaria comigo. Pedi que não puxasse a
placenta. Ele disse que não, iria aguardar sair, que não me preocupasse. E
assim continuei, falando sem parar sobre qualquer assunto que me vinha à
cabeça, desde o estado da minha laceração (levei meia dúzia de pontos) até
futebol.
Em alguns minutos chamaram o Enos para ir ver a bebê, enquanto eu
terminava essa parte. Quando a placenta saiu, pedi ao médico um momento antes
que a descartasse. “O que é agora?!?” Ele falou, meio sem paciência. Falei
calma, não vou querer comer a placenta nem nada. E expliquei freneticamente
sobre o suposto envelhecimento precoce da placenta e toda a história. Ele a
examinou rapidamente e concluiu que estava em perfeitas condições.
Os pontos foram uma tortura. Passaram uma anestesia local, mas podia
sentir a agulha e o fio passando pela pele perfeitamente. “Doutor!” berrei. “Me
dá alguma coisa para eu não sentir esses pontos, senão vou ter pesadelos com
essa sensação!” Ele riu. “Você não precisa. Acabou de dar a luz uma criança sem
anestesia! Já estou acabando”.
Final feliz
Então acabou. Duas ou três enfermeiras vieram e só respondiam meros
“aham” à minha conversa sem fim. Rs. Me colocaram um fraldão, do qual ri
loucamente e fiz piadinhas. Me ajudaram a levantar e passar para uma maca
estreita da qual me lembro de ter medo de cair. Pedi para que retirassem a
agulha da minha mão. O soro estava acabando, então o retiraram mas deixaram o acesso para o caso
de que precisasse de alguma medicação. Me empurraram afora do C.O., para a sala
de recuperação. Na saída, dr. Narciso conversava com dr. Henrique. Quando me
viu passar, comentou: “Veja dr. Henrique. Esta moça vai querer um parto de
cócoras da próxima vez. Vamos nos preparar!” Quase gritando porque já ia me
afastando, disse que não haveria próxima vez, que uma só tinha sido suficiente.
Todos riram. Ainda ouvi dr. Narciso dizer: “Isso você diz agora, mas ano que
vem estará aqui de novo!”
Me levaram até a sala de recuperação. Logo em seguida Enos entrou com a
bebê no colo. Já tinham entregado a bebê para ele àquela mesma hora que o
chamaram, e pai e filha tiveram esse tempo a sós para se reconhecerem do lado
de fora da barriga. Mas ali, naquele momento, exaustos pelo esforço e pela
noite sem sono, foi nosso primeiro momento como a pequena família que agora
somos.
Finalmente pude dar de mamar para minha pequena pela primeira vez.
Fazia 40 minutos que tinha parido, e fora o incômodo dos pontos, não sentia nem
sentiria dor alguma. A maca era terrível para me manter sentada, já que não
tinha encosto. Deitada, tinha medo de dormir e rolar para baixo (mesmo com as
grades) ou deixar a bebê cair. O cansaço era imenso, mas a vontade de ficar acordada
e acompanhar cada respiração da minha bonequinha era maior. Não havia cadeira
para o acompanhante, e o pobre Enos, pálido e exausto, sentou no chão mesmo, ao
lado da maca, para descansar um pouco.
Teríamos que aguardar um tempo a que a equipe do alojamento viesse nos
buscar quando nosso leito estivesse pronto, e esse tempo se tornou uma
eternidade. Enfermeiras vinham de vez em quando para ver como estava, se já
estava amamentando e se a pega estava correta. Me trouxeram um lanche. Para
cada enfermeira que entrava, eu perguntava quando iriam me levar, mas era mais
de 10h quando finalmente a equipe do alojamento veio nos buscar. A bebê, aquele
embrulhinho cor de rosa numa enorme manta verde do hospital, sempre ao meu
lado, fazendo os barulhinhos mais deliciosos. A partir de então, não iríamos
nos separar mais. Ela estava ali, nos meus braços, eu tinha parido e tudo
estava bem.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirOi Mari.. li as 3 partes, cada uma em seu dia, conforme vc foi postando e super dá pra imaginar como tudo realmente foi.. da sua tranquilidade do começo do dia com as leves contrações, ao desespero no momento com doutor em treinamento rs e Não me furem! rs até o momento mais feliz da sua vida: ter a Hadassa nos braços =] Mas posso ser honesta e te contar uma coisa? ai Mari... acho q eu nao tenho coragem de ter um parto assim, normal (nao chegou a ser natural neh) nao =/ eu sou tao medrosa e só de ler vc contando sobre os pontos q levou ai, ja me doi.. a cesaria tem uma recuperação horrível neh mas a gente nao sente nada na hora.. super em duvida! Planejo ter filhos em 6 anos mas nunca se sabe neh Enfim, adorei ter relato tudo tim tim por tim tim e continue contando como foram as primeiras semanas depois do parto! Bjoka
ResponderExcluir:ó)
ResponderExcluirparabéns, mari!!! quanta força!
amei seu relato!
beijo grande!
lindo relato!
ResponderExcluiradorei...
beijos
Thais
Nossa, essa é uma aventura e tanto né?! Admiro sua coragem/força de brigar pelo que você queria. Eu não sei se conseguiria não, apesar de pensar como você nessa hora acho que estaria tão cansada... Enfim, parabéns pela garra e pela pequena!! beijos
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